A recente vaga de violência xenófoba na África do Sul voltou a expor uma realidade perturbadora: estrangeiros africanos continuam a ser perseguidos, agredidos e humilhados em pleno território de um país que, ironicamente, foi símbolo da luta contra a segregação racial. Entre as vítimas, há cidadãos angolanos. E, diante disso, o que mais choca não é apenas a brutalidade dos ataques — é o silêncio ensurdecedor da Embaixada de Angola na África do Sul.
Por Geraldo José Letras
Enquanto relatos dão conta de espancamentos indiscriminados, destruição de propriedades e perseguições baseadas na nacionalidade, a representação diplomática angolana limita-se a uma postura discreta — quando não invisível. Não há, até ao momento, um posicionamento público firme, nem recomendações claras à comunidade, muito menos sinais de um plano de proteção ou eventual repatriamento. Num contexto de crise, essa ausência não é apenas preocupante — é inaceitável.
O contraste com a postura de outros países africanos é gritante. O Gana, por exemplo, reagiu com rapidez e assertividade. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Samuel Okudzeto Ablakwa, entrou imediatamente em contacto com o seu homólogo sul-africano, Ronald Lamola, exigindo esclarecimentos e medidas concretas.
Mais do que palavras, houve ação: identificação de vítimas, assistência consular direta e mobilização diplomática ao mais alto nível. A mensagem foi clara — nenhum cidadão ganês será deixado à sua sorte. Angola, por outro lado, permanece numa inércia diplomática difícil de justificar.
Estima-se que a comunidade angolana na África do Sul represente uma pequena fração do total de imigrantes africanos (14 mil) — significativamente inferior às comunidades da Nigéria, Zimbábue ou República Democrática do Congo. Ainda assim, essa menor expressão numérica não reduz o grau de exposição ao risco. Pelo contrário: comunidades menores tendem a ter menos redes de apoio, tornando-se alvos ainda mais fáceis em contextos de violência generalizada.
A xenofobia na África do Sul não é um fenómeno novo. Ela resulta de uma combinação explosiva de fatores: desigualdade económica extrema e elevado desemprego entre a população local; competição por empregos informais e serviços básicos, onde imigrantes são frequentemente vistos como “invasores”; falta de políticas públicas eficazes de integração social; narrativas políticas populistas, que exploram o ressentimento social. É neste último ponto que a situação se torna ainda mais grave.
Figuras políticas sul-africanas têm sido acusadas de incentivar, direta ou indiretamente, o sentimento anti-imigrante. O líder do partido EFF, Julius Malema, é frequentemente citado em debates sobre retórica nacionalista agressiva. Embora nem sempre haja apelos explícitos à violência, o tom inflamado contra estrangeiros contribui para legitimar hostilidade nas ruas.
Quando líderes políticos transformam frustração social em discurso contra “o outro africano”, abrem-se as portas para o caos.
Outro ponto crítico é a resposta das autoridades sul-africanas. Apesar de declarações pontuais de condenação, há uma percepção crescente de inércia institucional. Em alguns relatos, forças policiais são acusadas de não intervir — ou até de agir com complacência diante dos agressores.
Essa ambiguidade compromete a confiança e reforça a sensação de impunidade.
A história já mostrou onde o ódio ao “outro” pode levar. O Genocídio de Ruanda é um exemplo extremo de como discursos de exclusão podem escalar para tragédias humanas de proporções devastadoras. Comparações não devem ser feitas de forma leviana, mas ignorar os sinais iniciais é um erro que o continente não pode repetir.
Num momento em que cidadãos angolanos enfrentam risco real de vida no estrangeiro, espera-se mais do que diplomacia protocolar. Espera-se liderança, proteção e ação concreta.
A Embaixada de Angola na África do Sul deve: emitir alertas claros à comunidade; Criar linhas de apoio e evacuação; Pressionar diplomaticamente o governo sul-africano; coordenar com outras missões africanas respostas conjuntas.
O silêncio, neste caso, não é neutralidade — é omissão. E, enquanto Angola hesita, os seus cidadãos continuam expostos.
A pergunta que fica é simples e urgente: quantos mais terão de sofrer para que a diplomacia angolana acorde?


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